O PAÍS DO FAZ DE CONTA
Nos anos oitenta, precisamente em 1983, esteve de visita ao Brasil a então secretária do FMI, Ana María Jul , chegou em período carnavalesco. Entre um compromisso e outro sobrou tempo para assistir aos desfiles das escolas de samba no Rio. Ficou confusa e maravilhada com o que viu. Ao final, indagada por um repórter sobre o que estava achando do nosso país, saiu-se com essa: "É o país do faz de conta, nada aqui é real". Na entrevista concedida ao "Jornal Nacional", o presidente Lula lembrou em muito essa alegoria de país irreal imaginado pela então secretária do FMI". Se esquivou o mais que pôde ao falar dos companheiros flagrados com a boca na botija do mensalão, que como bem lembrou o apresentador William Bonner formaram uma "verdadeira quadrilha", conforme palavras do procurador geral da República Antonio Fernando de Souza. O presidente fez aquilo que só lhe é possível fazer para confessar parte do erro: que todos os acusados foram afastados e que o Ministério Público, assim com a Polícia Federal, jamais trabalhou tanto e com tanta isenção em seu governo.
Desta afirmativa, apenas a segunda parte é verdadeira. No que se refere aos seus ex-ministros José Dirceu e Antonio Palocci, relutou o mais que pôde e só os demitiu quando teve duas certezas: se não os tirasse, o seu desgaste aumentaria bastante; já no caso do ex-ministro todo poderoso da Fazenda, foi assim que percebeu que a comunidade internacional notara que a política econômica não mudaria, pois pertencia ao governo, não a Palocci.
Em relação ao restante da quadrilha, Lula continua sem dar uma resposta convincente. Sobre quem o teria traído, o nome permanece um dos mais bem guardados segredos da República. A respeito de sua conexão com envolvidos, não reconhece e continua negando absurdamente, o que torna os seus comparsas figuras misteriosamente desprendidas, capaz de tirar do próprio bolso quase R$ 30 mil para resgatar uma promissória cujo signatário não tem a menor idéia do que seja.
Lula continua certo de que confiar nas pessoas faz bem à alma e ao coração. Tanto que não se arrependeu de ter se cercado de figuras contra as quais hoje pesam gravíssimas acusações. Pelo visto, num eventual segundo mandato, manterá seu processo de escolha, por pior que se revele depois. Lula é um amigo desses que se pode contar a todo momento: permite que o traiam, que o prejudiquem, que dêem munição para uma oposição ávida em torpedeá-lo, para, quando os erros são trazidos à tona, aí sim tomar as devidas providências e afastar os infratores. Desprendimento igual se conhece apenas o de Jesus Cristo, que permitiu a Judas Iscariotes participar da última ceia e reconhecer em voz alta: "Um de vós me trairá".
Se antes, nos tempos de oposição, Lula pedia punições aos borbotões (e foi lembrado disto por Bonner, que ainda ouviu uma resposta atravessada) e falava de segurança como a coisa mais simples do mundo, agora o discurso está geograficamente mudado e ensaiado. Disse a quilometragem da fronteira seca e da costa brasileira e alegou que nem se a PF tivesse milhares de agentes a vigiá-las seria possível acabar com o tráfico de drogas e armas, praticamente concordando com o chefe do PCC, Marcola, não existe solução para o problema da violência no Brasil. Em miúdos: é uma questão de dimensão, não de esforço para conter o flagelo. Também, quem mandou o Brasil ser gigantesco? Se fosse do tamanho da Bélgica, seria mais tranqüilo.
No mesmo dia, a pesquisa do Ibope dava a reeleição do presidente no primeiro turno, com queda de seu principal adversário, Geraldo Alckmin. Que o cidadão rechaça a volta de pefelistas e tucanos ao comando do País. Mas que também não tem conseguido enxergar que pouco ou nada vai se alterar num segundo mandato de Lula, esta é também uma realidade nua, feia e crua. Ou seja, para Lula tudo vai bem, ele nada sabe, nada viu, e nada vai alterar num segundo mandato. Também pudera, vive no país do faz de conta.
Escrito por Roberto Patriota às 00h25
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A HORA DO VOTO
Enquanto assistia televisão e ao mesmo tempo conversava com alguns amigos no famoso bar "Castelinho" em plena praça pública da cidade de Touros, me deparo com a seguinte cena na tv: o cirurgião se vê subitamente diante de uma difícil opção. O que fazer? O paciente corre risco de vida. Busca a opinião dos auxiliares, que se esquivam. Devido ao fato de ser obrigado a tomar um rumo crucial, tira a moeda do bolso, pergunta quem quer cara ou coroa e joga para o alto. No final, a voz em off alerta que decisões importantes não podem ficar nas mãos do aleatório. E sentencia: "Tal como o seu voto".
Trata-se de uma campanha nacional, que visa alertar o brasileiro que na hora de votar, não adianta apertar qualquer botão e sair correndo para aproveitar o domingo na praia. O mais interessante dela é que é uma de tantas outras campanhas que conclama o eleitor a ser responsável nas suas escolhas. Todas em nome de entidades, organismos, enfim, representantes da sociedade organizada. Pretendem imprimir uma característica de seriedade pela primeira vez às eleições.
Assumem, acima de tudo, a postura de que o Congresso tem a nossa cara. Se é ruim, de baixo nível, é devido ao tanto de importância que damos à política. Já não cabe mais a alienada expressão "detesto política", como se escolher nossos representantes fosse um imenso sacrifício. Como não tivéssemos qualquer compromisso com os políticos que mandamos para os poderes Legislativo e Executivo.
Antes a moda era lavar as mãos e em tom arrogante alardear para os quatro cantos que "político é tudo igual". Todos corruptos, todos ladrões, sem exceção. Não havia sequer a preocupação de se peneirar para saber se entre tanta lama existia algum diamante. Pois diamantes existem, sim. São poucos, naturalmente, pois, se fossem farto, nada valeria. Mas o cascalho se favorece exatamente da indiferença, do descaso pela cidadania.
Todos querem pagar menos impostos, mas não se interessam em saber por que pagam tanto e são tão mal aplicados. É porque no meio do caminho há sempre um vampiro a dar bicadas no farto e recheado úbere dos cofres públicos.
O governo Lula teve de bom o fato de mostrar que somos capazes de escolher mal até mesmo entre aqueles que se julgam éticos, honestos, decentes. Sabem eles que tal voto é por osmose: até 2002, falava mais alto votar num deputado petista pelo simples fato de ele ser petista. Ser do PT era atestado de idoneidade moral. Viu-se, porém, que as coisas não funcionam assim e que mesmo dentro do partido existem aqueles que se servem da preguiça do eleitor em analisar cada caso. É justamente por causa disto que muitos deles vão tentar continuar na vida pública, rindo de todos nós. Porque a política hoje não distingue mais, pelos partidos, os bons dos maus, é que a campanha publicitária vem chamando a atenção do eleitor.
Pede para que ele, neste período que antecede o pleito, comece a meditar sobre suas escolhas, que não tenha medo de passar da esquerda para a direita (ou o contrário) se o nome que lhe interessa assim se apresentar. Que não se aferre a legendas, que não se deixe levar pela aparência ou pelas promessas. Que inverta o jogo e mostre que os políticos precisam mais de nós do que nós deles. Exatamente por termos o poder de decisão é que todos estamos sendo chamados a ser criteriosos, chamados a mostrar nossa força, mais uma vez.
Escrito por Roberto Patriota às 08h52
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JORNALISMO HOJE ( I )
Uma nova classe de jornalismo se fortalece nesta primeira década de milênio. É com ela que o futuro profissional deve estar sintonizado e, conseqüentemente, preparado. Segundo o Prof. André Manta da Universidade Federal da Bahia, em palestra em Natal: “o desenvolvimento ultra-rápido das tecnologias de comunicação, a expansão das redes de informação e a criação de interfaces amigáveis, que utilizam recursos de multimídia e hipertexto, estão acelerando o processo de digitalização das mídias tradicionais. Hoje, os mais importantes jornais e revistas do mercado editorial mundial estão na Internet”.
De qualquer forma o jornal eletrônico se constitui num imenso banco de dados, capaz de armazenar um número ilimitado de informações. Na edição digital, as matérias podem vir complementadas com textos adicionais, gráficos, fotografias que não podem ser inseridas nas edições em papel. O jornal eletrônico permite ainda a apresentação de som e imagens em movimento. Outra grande vantagem do jornal eletrônico, conforme salienta o professor baiano, é a manutenção de arquivo de edições passadas. Pode-se consultar qualquer informação em qualquer tempo. Jornais buscam equilíbrio entre meios de comunicação
Num primeiro momento, a erupção brutal da Internet encheu de terror os jornais do mundo inteiro. O jornal escrito não estaria agora sendo descartado e jogado fora pela rede mundial? Hoje, os jornais retomam seu sangue-frio e procuram antes um modus vivendi entre os dois meios de comunicação de massa: o de ontem e o de amanhã. O desenvolvimento da Internet é fulminante: existem 3.500 jornais eletrônicos.
No princípio, esses jornais eram exclusivos dos Estados Unidos. Mas está havendo uma evolução: há um ano, de todos os jornais eletrônicos, apenas 29% funcionavam fora dos Estados Unidos; hoje, essa proporção é de 43%. Outro número impressionante: em 1997, havia 46 milhões de usuários da Internet. Em fins de 1998, 80 milhões e, no ano 2000, 157 milhões. Em 2004, este número chegou a 460 milhões. Quais são as áreas em que a rede faz os maiores progressos? Em primeiro lugar, a das informações locais: isso explica por que os jornais regionais estão criando tantos sites.
Mas as notícias nacionais ou internacionais não estão mais ausentes. Num caso, pelo menos, observa-se que um grande jornal optou por colocar um informativo seu na rede, antes mesmo de imprimi-lo: foi o jornal Dallas Morning News, que lançou na Internet a notícia do atentado de Oklahoma antes de divulgá-la no noticiário impresso. Essa iniciativa foi recebida com desagrado pelos jornais escritos dos Estados Unidos, preocupados com a idéia de que a informação geral pudesse passar para o lado da Internet. Enfim, o lucro da Internet: as receitas publicitárias. Os Estados Unidos lideram neste ponto: em 1996, as receitas publicitárias atingiram US$ 300 milhões. A Europa vem bem depois. A própria Alemanha recebe apenas US$ 6 milhões. Hoje ultrapassam a casa dos US$ 12 bilhões.
Os jornais tradicionais deram a impressão de que já superou seu "grande temor" diante da rede. Todos eles acompanham o processo de informação on-line, mas pararam de aumentar seus investimentos no setor: em 1996, segundo a diretora de Editors and Publisher, Marsha Stoltman, "os investimentos dos jornais diminuíram, o número de pessoas que trabalham na edição eletrônica permaneceu estável; de modo geral, os gastos para o desenvolvimento on-line diminuíram", afirmou.
Escrito por Roberto Patriota às 00h37
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JORNALISMO HOJE ( II )
Maturidade - Sinal de maturidade: os editores dos jornais on-line começam a preocupar-se com o conteúdo e a apresentação dos produtos na Internet. Um dos mais ilustres designers de jornais, Mário Garcia, que trabalha nos Estados Unidos, deu em Amsterdã lições de profissionalismo e discrição ao mesmo tempo.
Ele ridicularizou os sites repletos de imagens, parecidos com árvores de Natal de todas as cores. "O pano de fundo deve ser branco; nada de fundos em forma de tapeçaria", disse ele. A tela deve ser clara, dividida em três partes no máximo e, se for permitido usar cores, elas jamais deverão insinuar-se no próprio texto, que deve continuar rigorosamente em "preto e branco".
Quanto ao conteúdo, segundo o mesmo Mario Garcia, longe de tender a uma informação rudimentar, "básica", a Internet "deverá, ao contrário, fazer esforços de aprofundamento". "Na Internet, a escrita volta a readquirir sua força; a leitura volta a ser o essencial", disse. "Vamos escrever textos cada vez mais longos: precisamos tornar a escrever como jornalistas”.
São estudos e prognósticos que irão diretamente ao coração daquelas pessoas - sejam leitores ou jornalistas - que acalentam a esperança de que os novos apoios da mídia não prejudicarão mais o saber, a profundidade ou a elegância dos textos que neles serão colocados.
A onda de anúncio na Internet é uma verdadeira avalanche. Há um crescimento desproporcional à evolução da própria rede. As empresas de uma forma geral descobriram que as páginas da Internet colocam suas empresas por muito tempo a disposição do consumidor e ainda, com a possibilidade de atualização diária.
Os anúncios de carros, por exemplo, que contavam com cerca de 27% dos US$ 15 bilhões gastos em classificados no ano passado, estão crescendo na Internet.
Sites como o Auto-By-Tel prometem roubar anúncios dos jornais ao oferecer informação de aproximadamente 2 mil negociantes de todo o país, com preços de carros novos e usados. O site até mesmo oferece seguro para os veículos.
Segundo o chefe de operações desta empresa, Mark Lorimer, "os jornais são muito bons para certas coisas, mas o que eles não conseguem fazer é oferecer dados mais complexos rapidamente, como preço, ano e modelo dos carros”.
Em outro tipo de anúncio, disse Lorimer, os jornais não podem mesmo competir. "Não há comparação", afirmou. "Como pode uma seção de classificados de um jornal com 20 ou 30 anúncios competir com 10 mil?” Para David Stout, supervisor de manufatura de 37 anos, a agilidade da Internet é inigualável. Preocupados, executivos de jornais estão criando sites na Internet. Mais de 95% dos 1.500 diários norte-americanos têm um site na rede e a previsão é de que aumentem até o fim do ano, chegando aos 100%, disse James Conaghan, diretor de análise de mercado e negócios da Associação de Jornais da América.
Escrito por Roberto Patriota às 00h36
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