AS PESQUISAS DO SEGUNDO TURNO
A pesquisa do Datafolha publicada ontem na "Folha de S. Paulo" revelou que, apesar de ter perdido o debate da Bandeirantes para Geraldo Alckmin, Lula ampliou para onze pontos - a vantagem foi de seis no primeiro turno - a diferença sobre o ex-governador de São Paulo. Ao mesmo tempo, para 43 por cento contra 41, o levantamento assinala que a maioria da opinião pública considerou o desempenho de Alckmin melhor no confronto de domingo à noite.
As imagens, na ocasião, final do cotejo, mostraram entusiasmo dos adeptos de Alckmin, preocupação dos assessores de Luís Inácio da Silva. O presidente da República, inclusive, chegou a reclamar do apoio informativo que lhe foi dado. O conceito em favor do candidato da coligação PSDB-PFL é sincero, sobretudo levando-se em conta que a maioria continua disposta a reeleger Lula. Logo, uma parcela de eleitores do PT reconhece a vitória de Alckmin, mas, claro, não mudou o voto por causa disso. Qual a explicação para a dualidade?
Se a diferença de 6 pontos, a do primeiro turno, tivesse se mantido inalterada, qualquer pessoa poderia dizer que o debate teve uma audiência boa, vinte por cento, mas não mudou nada. Mas não foi isso que aconteceu: a margem em favor de Lula tornou-se maior. Buscar a explicação na ausência da questão salarial no debate não dará resultado. Pois neste ponto a omissão foi dupla. Os candidatos, esta é que é a verdade, assumiram posição nitidamente conservadora. E a vêm mantendo ao longo da campanha. Não querem discutir a equação capital e trabalho. Escapam da realidade: os reajustes salariais perdem, no máximo empatam, com a inflação do IBGE. As aplicações financeiras ganham disparado dela.
Não foi esta, portanto, a causa da modificação dos índices entre um e outro. O programa das cestas básicas tampouco, já que Geraldo Alckmin comprometeu-se a mantê-lo. É verdade que poderia ter acrescentado: com as mesmas pessoas que hoje as estão recebendo. Evidente. Pois é possível manter-se um programa, substituindo-se os beneficiários. Este temor é naturalmente alimentado, principalmente no Nordeste, pelos que estão cadastrados no programa de combate à fome. As privatizações não podem ser apontadas como responsáveis pela ampliação da vantagem em favor de Lula, já que Alckmin também as condenou. Poderia, é verdade, ser mais explícito.
Condenou a privatização da Petrobras, do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal, dos Correios. Mas falhou ao não estender seu posicionamento ao setor elétrico. Vale lembrar que, no governo Fernando Henrique Cardoso, o então presidente do BNDES, Pio Borges, que acumulava o cargo com a presidência da Comissão Nacional de Desestatização, atritou-se fortemente com o então presidente de Furnas, Luís Carlos Santos, hoje deputado federal, porque desejava vender a segunda estatal do País, de qualquer maneira, por um preço ridículo.
Portanto, retirando-se estes pontos, que aliás não seriam suficiente para influir de forma substancial - como aconteceu - na pesquisa, só podemos encontrar resposta para nossa indagação num ponto: a presença de Fernando Henrique Cardoso na campanha do ex-governador paulista. Vale acentuar que FHC concluiu o mandato sob clima de grande hostilidade popular.
Fernando Henrique Cardoso, para citar Shakespeare, provoca em Alckmin uma aparição tão assustadora quanto a do rei da Dinamarca a Hamlet, na tragédia fantástica que já atravessa cinco séculos e que, sem dúvida, é eterna. Exprime a dúvida do ser ou não ser. A dúvida de Alckmin, hoje, certamente estará em torno da presença do aliado incômodo em sua campanha. Sem qualquer sombra de dúvida, iria melhor sem ele. Mas como descartá-lo? Impossível.
Passando a outro assunto, mas também vinculado à campanha sucessória, um amigo meu, ex-diretor do Unibanco no tempo de Valter Moreira Sales, me disse que a apreensão dos dólares que seriam usados como parte do pagamento do estúpido dossiê contra José Serra é algo extremamente sensível no sistema financeiro. E também na legislação brasileira. Ele me revelou que para dólares ingressarem no País é indispensável que sejam ou saldo de exportações, neste caso registradas nas contas de comércio exterior, ou propriedade de pessoas físicas que possuam conta no exterior.
Em ambos os casos os dólares têm que ser registrados no Banco Central. Os de São Paulo não foram. Se pertencentes a pessoas físicas, estas, pela legislação do Bacen, encontram-se obrigadas a declará-los, inclusive para fins de Imposto de Renda, da mesma forma que todos os possuidores de bens econômicos ou financeiros fora das fronteiras brasileiras. Os dólares de São Paulo - digo eu - podem ser a ponta de enorme iceberg que pode finalmente vir à tona.
Escrito por Roberto Patriota às 13h00
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