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O PADRE ANTÔNIO VIEIRA E A CORRUPÇÃO BRASILEIRA

Ontem estava eu a folhear a obra do grande Padre Antônio Vieira, figura maior do período colonial brasileiro, detentor da verve e pena mais brilhante de sua época, quando me deparo com mais uma notícia sobre corrupção política na TV. Fato que por sinal virou rotina na vida de todos nos. Rotina essa que não vem de hoje, mas de muito antes, na verdade começou com o descobrimento do Brasil, importado de Portugal como foi. Só para reavivar a memória de alguns, destaco abaixo, trecho do célebre "Sermão do Bom Ladrão", proferido pelo Padre Antônio Vieira na Capela da Misericórdia de Lisboa em 1655. Neste trecho do sermão dedicado ao Brasil, podemos perceber que a corrupção já andava campeando por aqui, livre e solta, e nosso país em quase nada mudou no que se refere ao tocante. O Brasil continua fiel as suas origens, tão atual como no século XVI, pelo menos nas artes de furtar e enganar. Vejamos:

 

"Este sermão, que hoje se prega na Misericórdia de Lisboa, e não se prega na Capela Real, parecia-me a mim que lá se havia de pregar, e não aqui. Daquela pauta havia de ser, e não desta. (...) Tanto que lá chegam, começam a furtar pelo modo indicativo, porque a primeira informação que pedem aos práticos é que lhes apontem e mostrem os caminhos por onde podem abarcar tudo. Furtam pelo modo imperativo, porque, como têm o mero e misto império, todo ele aplicam despoticamente às execuções da rapina. Furtam pelo modo mandativo, porque aceitam quanto lhes mandam, e, para que mandem todos, os que não mandam não são aceitos. Furtam pelo modo optativo, porque desejam quanto lhes parece bem e, gabando as coisas desejadas aos donos delas, por cortesia, sem vontade, as fazem suas. Furtam pelo modo conjuntivo, porque ajuntam o seu pouco cabedal com o daqueles que manejam muito, e basta só que ajuntem a sua graça, para serem quando menos meeiros na ganância. Furtam pelo modo potencial, porque, sem pretexto nem cerimônia, usam de potência. Furtam pelo modo permissivo, porque permitem que outros furtem, e estes compram as permissões. Furtam pelo modo infinitivo, porque não tem o fim o furtar com o fim do governo, e sempre lá deixam raízes em que se vão continuando os furtos. Estes mesmos modos conjugam por todas as pessoas, porque a primeira pessoa do verbo é a sua, as segundas os seus criados, e as terceiras quantas para isso têm indústria e consciência. Furtam juntamente por todos os tempos, porque do presente — que é o seu tempo — colhem quanto dá de si o triênio; e para incluírem no presente o pretérito e futuro, do pretérito desenterram crimes, de que vendem os perdões, e dívidas esquecidas, de que se pagam inteiramente, e do futuro empenham as rendas e antecipam os contratos, com que tudo o caído e não caído lhes vem a cair nas mãos. Finalmente, nos mesmos tempos, não lhes escapam os imperfeitos, perfeitos, plus quam perfeitos, e quaisquer outros, porque furtam, furtaram, furtavam, furtariam e haveriam de furtar mais, se mais houvesse. Em suma, que o resumo de toda esta rapante conjugação vem a ser o supino do mesmo verbo: a furtar para furtar. E quando eles têm conjugado assim toda a voz ativa, e as miseráveis províncias suportado toda a passiva, eles, como se tiveram feito grandes serviços, tornam carregados de despojos e ricos, e elas ficam roubadas e consumidas".



Escrito por Roberto Patriota às 16h34
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O SENADO E A VERGONHA NACIONAL

 

O Conselho de Ética do Senado deixou o país perplexo e indignado. Virou um imenso palavrão, um pesadelo ético. Se o Senado é isso aí, para que o Senado? Eles se dizem a "Câmara Alta". Dificilmente se veria espetáculo mais rasteiro. Um show macabro de suplentes sem voto e sem nível algum, tentando defender o que eles mesmos tornaram indefensável.

 

O senador Renan, encurralado pela imprensa, acusado de pagar a pensão da filha dele com uma jornalista com dinheiro de empreiteira, sem ninguém pedir mandou para o Conselho de Ética uma pilha de papéis (notas fiscais, recibos, cópias de cheques, guias de transportes agrícolas, etc) para mostrar "a venda de 2.213 cabeças de gado de três fazendas", o que é folgadamente suficiente para provar que tem dinheiro fácil para pagar.

 

O Conselho encarregou o diretor de Controle Interno do Senado e uma equipe do Instituto de Criminalística da Policia Federal de irem a Alagoas conferir os documentos. A emenda foi pior que o soneto. O diretor do Senado atestou que as guias, notas fiscais, recibos e cheques são autênticos. Mas o laudo da Polícia Federal diz que a papelada não corresponde aos negócios: - "Não foi possível concluir pela autenticidade das notas fiscais, uma vez que não foi possível afirmar que as transferências comerciais ali descritas efetivamente ocorreram". E agora? 

 

E diz mais a PF: - "Não explica a venda de 1.060 cabeças de gado, um negócio que teria lhe rendido R$ 1 milhão". (Explica apenas a venda de 1.153 cabeças). "Grande parte dos destinatários do gado vendido não coincide com aqueles informados nas notas fiscais". Conclusão: uma zorra agrícola e contabil total.

 

O senador diz que o processo é "esquizofrênico". E  com certeza é. E quem mais contribuiu para a esquizofrenia foi exatamente ele. (Aurelio - "Esquizofrenia: "varias formas clínicas de psicopatia e distúrbios mentais").

 

A acusação era de que um funcionário de uma empreiteira pagava as contas. Quando o senador disse que o dinheiro era dele, que seu Imposto de Renda provava que tinha recursos para pagar a pensão do próprio bolso e que fez um velho amigo portador dos pagamentos para manter o relacionamento em sigilo, ninguém apresentou provas de que o dinheiro era da empreiteira. A prova cabe a quem acusa e a justiça já havia fixado o valor da pensão.

 

De repente, em incrível gesto de auto-suficiência e lerdeza, o senador aparece com um balaio de comprovantes comerciais, que a Receita Federal nunca lhe havia pedido e também agora ninguém lhe pediu, e joga na praça. Se estivessem todos certinhos, mesmo assim não haveria sentido, por serem dispensáveis. E os papéis voaram ao vento no redemoinho de um escândalo que é a cara do Governo Lula.

 

Isso é erro de advogados poderosos e arrogantes: Eduardo Ferrão e o sócio Nelson Jobim. O processo vai parar no foro privilegiado do Supremo, mas agora é tarde. Renan perdeu as condições políticas de continuar na presidência do Senado. Não por falta de ética parlamentar, mas por falta de vergonha na cara..



Escrito por Roberto Patriota às 10h06
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